HISTERIA ONTEM, HOJE E SEMPRE...
- Camila Maria
- 26 de out. de 2023
- 11 min de leitura
Atualizado: 2 de jul. de 2024
Quando avaliamos o percurso da teoria freudiana percebemos que as questões acerca da histeria se confundem com aquelas a respeito da sexualidade feminina. Tal correlação é facilmente entendida, uma vez que compreendem enigmas que estão presentes em toda obra psicanalítica e que levaram Freud a grandes impasses tais como o que é uma mulher e o que quer uma mulher. Não é por acaso que o termo histeria, derivado da palavra hystera, signifique útero e que Freud tenha iniciado seus estudos escutando as mulheres. Pensando no significante útero, logo podemos entender as atribuições feitas à Histeria como uma doença própria da sexualidade feminina. Esta questão de gênero por muito tempo perpassou o discurso científico sobre a Histeria e gerou uma série de preconceitos relacionados à sua causa e que foram acumulados por séculos. A respeito disso, Freud, em seu texto ‘‘Histeria’’, nos diz: "O nome histeria tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria. Alguns documentos daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificações até os dias atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão da doença tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire da medicina. Os pobres histéricos, que em séculos anteriores tinham sido lançados à fogueira ou exorcizados, em épocas recentes e esclarecidas, estavam sujeitos à maldição do ridículo; seu estado era tido como indigno de observação clínica, como se fosse simulação e exagero". (FREUD, S. – “Histeria”, 1888, ESB, vol I, p. 77) A Histeria tem sido estudada desde a Grécia Antiga e sempre exerceu grande fascínio nos que a ela se dedicaram, quer quanto à plasticidade característica de seus sintomas, quer quanto à riqueza de seus conteúdos morais e sexuais. A diversidade sintomática da histeria muito dificultou, e dificulta, na delimitação de seus sintomas. Tomando emprestado as palavras de Antônio Quinet, em seu livro, A lição de Charcot, podemos dizer que: “A histeria – como antigamente, hoje e sempre – é a pedra que empurra as pesquisas, pois se por um lado aceita ser coreografada pelos mestres da ciência, por outro, acaba desafiando seu saber ao se recusar a ser classificada. Como? Inventando novas formas e não respondendo aos tratamentos. A histeria é sempre desclassificada. É ela, no entanto, que faz, com seus desafios, avançar a ciência, que tenta sempre enquadrá-la e medicá-la para subjulgar as manifestações do sujeito do desejo. Mas a histeria reinvindica seus direitos e derruba seus mestres e senhores” (QUINET, A. – A lição de Charcot, 2005, p. 15) A história da histeria sempre esteve envolta em muitos mistérios, principalmente no que diz respeito à causalidade desta doença. Foi considerada como manifestação de possessões diabólicas, humores ou vapores que atingiam o cérebro, como produto de problemas referentes ao aparelho sexual feminino, sendo estes decorrentes do deslocamento da matriz, da sua sufocação, ou, ainda, da retenção da semente feminina devido à ausência do coito. Dentre todas estas diversas suposições teóricas, percebemos que o tema sexual sempre esteve relacionado com a histeria, em todos os seus períodos históricos, e, inicialmente, estava vinculada com a figura da mulher. “Toda a história da histeria é percorrida por uma dupla corrente: uma, baseada na observação dos fatos, na compilação de dados objetivos, na comparação com outros fenômenos, na repetição e na reprodução; a outra, aberta à imaginação,ao sonho, ao mundo interior e subjetivo, à comunicação do ser, para além das fronteiras corporais, com o mundo, com o cosmo e porque não, com Deus... ou o Diabo!” (TRILLAT, E. – História da Histeria, 1991, p. 14) Decididamente, a história coloca tanto para os filósofos, quanto para os médicos, um ENIGMA que não se integra num corpo de doutrina, mas privilegiadamente num corpo de MULHER. Cabe lembrar que, este enigma perpassou por vários séculos e continua em plena contemporaneidade. Ao fazermos uma retrospectiva acerca do tratamento dispensado aos sintomas que ora são classificados como histéricos, verifica-se que estes já estavam presentes desde o antigo Egito, onde, por crença, eram considerados problemas de saúde relacionados ao útero, acreditando-se no deslocamento da matriz pelo corpo da mulher. O saber sobre a histeria, que era detido pelas parteiras, no século IV a.C entrou no domínio da Medicina, quando esta se constituiu em torno de Hipócrates. Este, assim com Platão, seu contemporâneo, retoma as crenças milenares de que o útero era um organismo vivo tal qual um animal e que possuía autonomia e capacidade de se deslocar. Tal idéia remonta à Antiguidade, cerca de 2000 anos a.C. São inúmeras as teorias acerca da histeria e sua correlação às manifestações do útero, que, na obra de Platão, sob o título de Timeu, foi tido como um animal que, ávido por alimento e possuído pelo DESEJO de fazer filhos, tomava o corpo da mulher na ânsia de se saciar, causando assim as manifestações da hystera. Porém, é a Hipócrates que se atribui tradicionalmente a inscrição da histeria entre as principais doenças do sexo feminino. Hipócrates acreditava na sufocação da matriz - manifestação da mobilidade do útero que sobrevinha às mulheres que não possuíam relações sexuais - e o tratamento por ele indicado, era simples: o coito. Tal suposição foi ratificada por Galeno, que, além de acreditar no adoecimento da mulher em virtude da abstinência sexual, associava histeria à sufocação uterina. A partir desses princípios, Galeno, considerou que estas causalidades eram conseqüências da retenção do esperma feminino devido à ausência do coito. Atribuiu à mulher a emissão de uma semente análoga ao esperma masculino e estabeleceu, pela primeira vez, uma teoria sexual - ou melhor, seminal - da histeria. A “descoberta” de Galeno levou à admissibilidade de que a histeria não era uma doença exclusivamente feminina, pois a retenção do esperma também poderia provocar torpor, melancolia e distúrbios orgânicos funcionais nos homens. A partir do século II d.C. e por toda a Idade Média não se ouvirá falar sobre a histeria, uma vez que os sintomas histéricos deram espaço às intervenções divinas ou demoníacas. Este é o período das possuídas e da caça às histéricas, que neste momento foram consideradas como bruxas, ou seja, iniciou-se a era da Inquisição, na qual várias destas mulheres pararam na fogueira. A Igreja investigou, “reconheceu” os casos de bruxarias e mandou para a fogueira todas aquelas que se comportavam histericamente. A contar do século XVII, os sintomas histéricos passaram pela fase dos vapores, da teoria dos espíritos animais, pela sede cerebral e por várias outras teorias e classificações. Com Thomas Willis e com Lange, na sua obra sob o título Tratado dos Vapores, houve a proposição do centro nervoso da histeria, porém não se desvinculou a sua origem uterina. Willis propôs uma teoria dos “espíritos animais”, porém, segundo o próprio, o que parecia constituir a histeria formal eram os movimentos do baixo-ventre. Ele acreditava que tais espíritos eram átomos constituídos por partículas extremamente pequenas e liberados pelo calor e pela fermentação da cavidade do coração que eram transmitidos ao cérebro através das artérias e posteriormente, enviados às demais partes do corpo. Já Lange considerava que, quando havia o acúmulo de semente por falta do coito, ocorria uma produção de fermentos seminais liberados por vapores; sendo que os nervos seriam os únicos canais que poderiam transmitir os movimentos dos vapores para o cérebro, acreditando que, os tais já conhecido fenômenos - convulsões, delírios, mania, palpitações, etc.- eram o resultado da não transmissão daqueles ao cérebro. O primeiro a desconsiderar por completo a teoria uterina e acreditar na sede cerebral da histeria foi Thomas Sydenham. Para ele a histeria era uma doença enganadora que “imita quase todas as doenças que ocorrem no gênero humano, pois em qualquer parte do corpo em que ela se encontre, ela produz imediatamente os sintomas que são próprios dessa parte” [1]. Neste momento da história, o sujeito histérico foi tido como o grande burlador e a histeria passou a ser combatida nos hábitos sociais e foi considerada cabível à moralização, uma vez que os indivíduos por ela acometidos, tratavam-se de pessoas ociosas que se fatigavam com o trabalho manual. O tratamento moral à histeria foi muito bem descrito por Etiene Trillat, em seu livro História da Histeria; “é preciso afastar as histéricas do comércio com os homens, falar-lhes a língua da razão, dirigir seu espírito para as idéias religiosas e para os princípios de uma sanidade moral” [2]. No século XVIII, Pinel revolucionou com a libertação dos loucos e classifica a histeria como neurose, mas, segundo Trillat, a obra pineliana, “Nosologia filosófica”, não trás nada de novo. Pelo contrário, Pinel recua ao modelo da Antiguidade e abandona as teorias contemporâneas, à medida que continua a ver no útero a sede da histeria e, como Hipócrates e Galeno, acreditava que os fenômenos histéricos eram decorrentes da continência sexual; logo o tratamento por ele recomendado era o mesmo daqueles que lhe precederam, o coito, a partir da sua recomendação ao casamento. De bruxas na Idade Média a alienadas no século XIX, eis que neste período surgiram várias concepções acerca da histeria, e a imagem da mulher passou por uma nova fase, na qual surgiram diferentes teorias que, baseadas na medicina científica, mais uma vez tiveram como objetivo classificar os fenômenos que acometiam o feminino. Porém, cabe ressaltar que, conforme já destacado anteriormente nas palavras de Antônio Quinet, os sintomas histéricos serão sempre desclassificáveis, porque a histeria se recusa a este enquadramento. “Histeria rima com rebeldia. A encenação histérica revela a rebelião própria e estrutural da histeria, que se recusa a deixar-se dominar”. [3] Somente no final do século XIX é que os sintomas histéricos, ditos fenômenos demoníacos na Idade Média, que foram classificados e desclassificados outrora como deslocamento e sufocação do útero, além de caracterizados como a retenção da semente feminina, ou, ainda como consequência da liberação e não transmissão de vapores ao cérebro, vieram a ser identificados por Charcot e pela escola de Salpêtrière como essência. Apesar de que, todo este discurso fora contestado pela Escola de Nancy, representada por nomes como os de Hippolyte Bernhein e Joseph Babinski, que tinham o sintoma histérico como pura imagem. Podemos dizer que, o “nascimento” da Histeria se deu com Jean-Martin Charcot – o personagem principal desta história, guardando, obviamente, grandes ressalvas a Freud -, no ano de 1882, em Paris, com a Criação da Cátedra de Clínica de Doentes Mentais, a Escola de Salpêtrière, que se tornaria a maior clínica neurológica da Europa e o “local onde Freud vislumbraria o que estava para além do espetáculo e da nosografia: o inconsciente como a Outra Cena” [4]. Charcot foi o primeiro a fazer da histeria uma verdadeira entidade clínica respeitável. Segundo Vera Pollo, ele “acreditou na existência de um “sintoma real” por trás das variadas e exageradas mises-en-scène”[5]. Seu trabalho clínico era focado na definição exaustiva de um tipo de histeria observada em mulheres, homens e crianças, rompendo com a idéia inicial da histeria como uma doença que acometia somente mulheres. Embora a histeria feminina tenha uma grande importância no percurso histórico e teórico da psicanálise. Juntamente com seus discípulos da escola Salpêtrière, Charcot teve como objetivo a aplicação da neurologia, e toda a inspiração proveniente desta, à psiquiatria. Apesar de considerar que a etiogenia da histeria possuía uma causalidade hereditária, além de uma lesão anatômica, ele estava mais preocupado com a descrição dos sintomas histéricos do que com as suas causas. Sendo assim, buscou agrupar e descrever todos os sintomas, a fim de constituir a esta, um tipo e uma entidade clínica Charcot então apresenta uma moderna noção de uma neurose histérica subentendida por uma causa traumática e de ordem genital. O método charcotiano rompeu com o estigma de simulação que caracterizava os sujeitos histéricos, à medida que seu trabalho se mostrou permeado por um estilo descritivo e nosológico, modelo que exprimia as investigações sobre a histeria naquela época. O diagnóstico de histeria deixou de ser estabelecido pela etiologia - embora os fatores etiológicos tivessem sua relevância - e passou a ser fundamentado pela descrição dos fenômenos histéricos, que passaram a embasar o entendimento acerca do mecanismo da histeria e, ainda, a constituição de novos métodos de tratamento. Mais tarde, com Freud e Lacan, o diagnóstico terá como base o Desejo e a Demanda do sujeito. Com Charcot a histeria ganhou identidade própria e teve determinado o seu destino final, o inconsciente, que seria descoberto mais tarde por Freud. Este teve a histeria e a mulher como pedras angulares na edificação das suas teorias sobre o funcionamento do psiquismo. Do encontro de Freud com as mulheres histéricas surgiu um novo significante: a psicanálise, que muito contribuiu para o desvelar da histeria, suas causas inconscientes e o caminho da formação dos seus sintomas. Adiantando um pouco a linha do tempo da histeria, como Freud já havia nos dito, a histérica continua a fazer de seu sintoma uma “bête noire” da Medicina. Conforme visto anteriormente, foram várias as contribuições dos médicos do século XIX no que tange ao tratamento da histeria. Com a descrição minuciosa dos fenômenos foi possível captar os mecanismos referentes à enigmática sintomatologia histérica e sustentá-la como categoria nosológica retirando da marginalização e estigmatização de simulação. Neste contexto científico acerca da histeria Freud teve grande destaque, avançou na pesquisa dos fatores etiológicos desta neurose, subverteu alógica terapêutica empregada no tratamento da histeria e inaugurou uma prática clínica que situa o sujeito do inconsciente como o referente absoluto na direção do tratamento das neuroses, psicoses e perversões. No entanto, em plena contemporaneidade, a clínica psiquiátrica vem se desapropriando do que foi pesquisado e descoberto a respeito da histeria. O que nos assusta é que mesmo após anos de estudos sobre a histeria, hoje esta foi banida da nosografia psiquiátrica não sendo mais encontrada nos manuais com DSM IV e CID 10. Entretanto, conforme nos foi comprovado por Freud, acreditamos que a classificação de uma doença e o enquadre de um sujeito de acordo com estereótipos nosográficos não dá, nunca deu e nunca dará conta do indizível simbolizado em sintomas. Verifica-se em manuais de diagnósticos, como o DSM IV e o CID-10, que o diagnóstico de histeria foi rejeitado pela comunidade científica dando lugar às novas classificações diagnósticas dos transtornos dissociativos, transtornos de personalidade transtornos bipolares. O que vemos hoje é uma mudança de nomenclatura com a qual o sujeito contemporâneo, em sua maioria, se identifica e a utiliza para se amarrar cada vez mais ao seu sintoma. A respeito disso Maria Anita Carneiro Ribeiro nos diz que “o que se oculta por trás de uma aparente mera mudança de sigla é toda uma política do discurso capitalista de anular o sujeito do desejo e substituí-lo pela figura do consumidor passivo” [6]. Neste contexto, o transtorno bipolar, por exemplo, seria uma doença cerebral com a qual o sujeito não tem nada a ver e que necessita de remédios para ser controlada. Enquanto a histeria um distúrbio que produz sofrimento psíquico e que aponta para os impasses do sujeito com o seu desejo inconsciente. “Mas se a histeria foi mandada embora pela porta, retornou nas mais variadas formas por todas as janelas” [7]. Atualmente a histeria está mais presentes do que nunca, porém a roupagem dos seus sintomas são um pouco diferentes, mas o corpo, em todos os casos, continua sendo objeto. A anorexia e bulimia são exemplos de quadros histéricos contemporâneos. O sujeito histérico sempre existiu e sempre existirá. Recusar a histeria é rejeitar a existência do inconsciente simbolizado em seu sintoma. A psiquiatria atual, ao rejeitar as manifestações psíquicas, sejam estas histéricas ou obsessivas, menospreza o sujeito em todas as suas dimensões. Onde há um sintoma, há um sujeito. Fazendo uso mais uma vez das sábias palavras de Quinet, afirmamos que “acolher a histeria é acolher o sujeito do inconsciente, pois as histéricas são amigas do inconsciente, simpatizantes da causa analítica, militantes da associação livre” [8]. Referências: [1] QUINET, A. - A lição de Charcot, 2005, p. 95-96. [2] TRILLAT, E. - História da Histeria, 1991, p. 114. [3] QUINET, A. - A Lição de Charcot, 2005, p.15. [4] QUINET, A. - A Lição de Charcot, 2005, p. 7. [5] POLLO, V. - Mulheres histéricas, 2003, p. 18. [6] RIBEIRO, M. A. C. – A neurose obsessiva, 2006, p.7. [7] QUINET, A. – “Histerias”, Stylus, vol. 7, 2003, p.70. [8] QUINET, A. – “Histerias”, Stylus, vol. 7, 2003, p.71. [ por Camila Grasso ]
*O presente texto é parte de um trabalho apresentado pela autora ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da UERJ em 2021.
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